O cenário econômico em 2016 …

… ainda deve ser marcado pela apatia e falta de confiança dos consumidores e dos empresários e a freada da economia doméstica.

 

… com a perda do grau de investimento do país e de várias empresas, os juros mais altos, a crise política sem horizontes claros e a depreciação da moeda brasileira criarão um cenário de grande incerteza e dificultarão a tomada de decisões por parte do setor corporativo.

 

… com aumento do desemprego e do endividamento das famílias e das empresas, além de crédito mais restrito, aponta para uma forte retração de vendas. A fórmula antiga de consumo financiado por crédito farto, atualmente, é motivo de preocupação entre a população, as empresas e as instituições financeiras.

 

 

Segundo relatório de “Perspectivas Econômicas Globais”, publicado pelo Bando Mundial no início de 2016, a economia brasileira continuará a encolher neste ano depois de enfrentar forte recessão em 2015. A instituição estima para 2016 uma contração de 2,5% no PIB e, somente nos dois anos seguintes, a economia brasileira se recuperará, com crescimento estimado de 1,4% em 2017 e de 1,5% em 2018.

 

De acordo com o Banco Mundial, dos países do BRICs, somente o Brasil e a Rússia terão recessão este ano. A Índia passou a liderar o crescimento econômico global, com estimativas de expansão de 7,8% em 2016 e 7,9% no biênio 2017/2018. Com a economia em desaceleração, a China caiu para o 2º lugar, com projeção de crescimento de 6,7% em 2016 e 6,5% nos dois anos seguintes. A lenta recuperação dos mercados emergentes terá peso significativo no crescimento global em 2016, cuja estimativa foi revisada de 3,3% para 2,9%.

 

A previsão, no entanto, indica melhora ante os 2,4% projetados para 2015, por causa da recuperação dos países avançados, que começa a surtir efeito e a influenciar a economia do planeta. Por outro lado, fatores externos prejudicam a evolução da economia brasileira, como a elevação do juro básico dos EUA, que tende a subir as taxas de financiamento ao redor do mundo, e o desaquecimento da atividade na China, que impacta negativamente os preços das commodities, que por sua vez enfraquecem as taxas de câmbio de países exportadores de matérias-primas.

 

Ainda maior a queda projetada para 2,95% pelos analistas de mercado para o PIB em 2016, conforme o Relatório Focus, divulgado recentemente pelo Banco Central. A estimativa para a baixa da economia em 2015 foi revista para 3,71%. A projeção para uma inflação (IPCA) em 2015 da ordem de 10,72% e a expectativa para 2016 é de fechamento com alta de 6,87%. Para 2016, o consumo das famílias ainda deve ter queda na casa de 2,0% (após -2,8% estimado para 2015) e queda de investimentos de 9,0% (após -15,0% no ano passado).

 

Como o ritmo em que se encerra o ano é o mesmo com o qual se começa o seguinte, as perspectivas da economia brasileira para o 1º trimestre de 2016 são ainda mais negativas, sinalizando com o agravamento da recessão e a alta da inflação no curto prazo, pressionada pelos aumentos de tarifas e de impostos já autorizados, e pelos fatores inflacionários típicos desta fase inicial do ano, como mensalidades e material escolar, entre outros. No biênio 2015/16, inauguramos um período de forte ajuste recessivo, objetivando a redução da inflação e controle dos déficits fiscal e externo, que por certo trarão consequências desastrosas sobre a taxa de desemprego, redução da renda per capita e da geração de massa salarial, impactando fortemente o consumo, investimento e nível de atividade econômica. Com a expectativa de continuidade na deterioração do mercado de trabalho e a consequente queda na renda, a tendência é que se agrave o cenário de consumo e crédito.

 

Situação ainda mais trágica foi para a indústria, que em setembro de 2015 apresentava uma redução da produção de -10,81%, acumulado em 12 meses, sem perspectiva de curto prazo para retomada de crescimento. Diferente da crise de 2008, na qual a produção industrial caia rapidamente, mas os serviços e o comércio mantinham-se aquecidos, o acumulado em 12 meses para as vendas do varejo em agosto de 2015 apresentava uma redução de -6,9%, sinalizando queda de cerca de 8,0% das vendas em 2015, em consequência da diminuição da massa salarial de 12,2% (-3,7 % de emprego e – 8,8 % de renda até novembro), do crédito difícil e caro e da baixa confiança do consumidor. A taxa de desemprego subiu de 6.8% para 8,7% entre janeiro e agosto de 2015 (dados PNAD/IBGE). O desemprego em 2016 tende a ser ainda pior do que no ano passado.

 

O mercado financeiro também apresentou ajustes das estimativas para o comportamento do câmbio em 2016. De acordo com o Relatório Focus, a mediana das projeções para o dólar passou para R$ 4,21, tendo alguns analistas e instituições financeiras chegado a estimar o enfraquecimento do Real, podendo alcançar entre R$ 4,50 e R$ 5,00 no 2º semestre de 2016.  O único indicador positivo refere-se ao setor externo, devido mais à recessão interna e ao seu impacto sobre as importações, do que ao incremento das exportações, apesar da forte desvalorização cambial.

 

O Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a taxa básica de juros Selic em 2015 para 14,25% ao ano. Na reunião do Copom deste mês, as instituições financeiras esperam que a Selic suba para 14,75% ao ano. Ao fim de 2016, a projeção para a Selic é de 15,25% ao ano. Segundo analistas, o aumento da Selic por outro lado poderá provocar aprofundamento da recessão e o agravamento da situação fiscal, podendo causar pouco efeito na trajetória da inflação, com inflação ainda alta até meados de 2017 e pressão sobre o mercado de trabalho até o final de 2018.

 

O Poder Executivo começou o ano anunciando alguns programas para tentar reativar a economia, como aumento e flexibilização do crédito pelos bancos públicos, o que poderá dar algum alento ao setor, mas cujos efeitos dependerão de outras variáveis, tais como: a disponibilidade real de volume suficiente no orçamento para execução desses programas, a confiança dos empresários e dos consumidores, e a instabilidade política.  Caso a crise política continue se arrastando, o Brasil terá mais um ano de recessão bastante forte, com alguma possível queda da taxa de inflação, transferindo as esperanças de uma potencial estabilização e posterior recuperação do crescimento somente a partir de 2017, mas com indicadores bem acanhados. Além disso, são poucas as iniciativas reais de contenção dos gastos públicos e exígua, politicamente, as chances de conduzirem reformas estruturais que tanto o país necessita.

Portanto, apertem os cintos … para sobreviver a 2016.

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