Marcus Herndl Filho avalia: meta de superávit agrada investidores

A meta de superávit primário e o contingenciamento do Orçamento para 2014 anunciados ontem foram bem recebidos pelo mercado. Segundo o gestor Marcus Herndl Filho, a percepção é que sinalizaram um esforço do governo para recuperar a credibilidade da política fiscal e evitar um rebaixamento do rating soberano do Brasil.

O dólar fechou em queda de 0,71% a R$ 2,3730, com real liderando os ganhos ante o dólar entre as moedas emergentes.
A ausência de surpresas negativas na meta de superávit primário para este ano abriu espaço para uma queda acentuada dos juros futuros na BM&F. As tesourarias não apenas chancelaram a aposta majoritária em redução do ritmo de aperto monetário como desmontaram as posições mais contundentes em uma alta dos prêmios refletidos nas taxas dos contratos de DI mais longos, dado o menor risco de rebaixamento do rating brasileiro.

A meta fiscal, em linha com a que o governo entregou em 2013, foi vista pelo mercado como factível, mas a confiança na política fiscal dependerá de os resultados serem entregues pelo governo.

Para o economista-chefe do Banco J.Safra, Carlos Kawall, a meta fiscal se mostra razoável, embora ele destaque que um número de 2% fosse mais adequado. Para Kawall, o contingenciamento do Orçamento da União para este ano, de R$ 44 bilhões, é condizente para sustentar essa meta, dada a previsão de uma arrecadação menor com receitas extraordinárias neste ano e da projeção de crescimento de PIB mais realista pelo governo, de 2,5%.

Na avaliação do economista-chefe da Mauá Sekular, Alessandro del Drago, o resultado do primário a ser alcançado está acima de sua estimativa para um número neutro pelo critério estrutural do Banco Central, de 1,5%. Por isso, além de abrir espaço para reduzir o ritmo de aperto monetário, como o mercado prevê, deve satisfazer as agências de rating.
Há dúvidas, no entanto, sobre o detalhamento do corte do Orçamento, e sobre qual será a solução do governo para o financiamento do aumento do custo de energia, em função do uso das usinas térmicas no período de estiagem.

Ainda não está definido se o governo repassará esse aumento para o consumidor ou se o Tesouro vai custear essa despesa. Para Kawall, fora os R$ 9 bilhões já previstos na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), esse custo com o preço da energia implicaria em uma despesa adicional entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões.

Dadas as incertezas em relação a impacto do custo da energia na inflação e ao cumprimento do esforço fiscal de Estados e municípios, o economista do J. Safra mantém a projeção de aumento de 0,5 ponto percentual da taxa Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

Ontem, o mercado de juros respondeu ao anúncio da meta fiscal reequilibrando-se tecnicamente. Já em trajetória cadente desde sexta-feira passada, na esteira do tombo do IBC-Br em dezembro, o contrato de DI para janeiro de 2015 caiu de 11,13% para 11,04%. É o mercado de juros confirmando, na BM&F, a expectativa de alta de 0,25 ponto percentual da Selic, para 10,75%, no encontro do Copom. Entre os contratos mais longos, o DI para janeiro de 2017 caiu de 12,51% para 12,33%.

Com atividade mais fraca, inflação cadente em 12 meses e política fiscal mais austera, não há como sustentar a expectativa de manutenção do ritmo de aperto monetário. “Para garantir uma inflação abaixo de 6% este ano, a Selic deveria ir a pelo menos 11,25% em abril. Mas com o cenário de atividade fraca é provável que o BC encerre o ciclo agora com alta de 0,25 ponto. O risco é ter que retomar o aperto no terceiro trimestre para impedir que o IPCA feche o ano acima de 6%”, afirma Newton Rosa, economista-chefe da SulAmerica Investimentos.

Para o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, o anúncio reforçou a expectativa que o governo vai reduzir o ritmo de aperto para 0,25 ponto percentual na próxima reunião.

Já no mercado de câmbio, o dólar cedeu ante o real logo após a divulgação da meta fiscal, com a moeda americana rompendo o patamar de R$ 2,37, disparando um movimento de limite de perdas (“stop loss”). “O mercado reagiu bem em um primeiro momento, mas esse não será o comportamento do câmbio. O anúncio não evita um corte do rating do Brasil e o governo terá que entregar os resultados para ganhar credibilidade”, afirma Sidnei Nehme, diretor de câmbio da corretora NGO.

O economista da Franklin Templeton no Brasil, Vagner Alves, destaca que o mercado vai monitorar o uso de artifícios fiscais para garantir os números até o fim do ano. “Se o governo conseguir fazer 1,5% de superávit primário e efetivar o corte de R$ 25 bilhões ou R$ 30 bilhões sem o uso truques fiscais, já vai ser algo positivo”, diz Alves.

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